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Presunto de Peru março 2, 2009

Posted by joaopaulonevescabral in Conto.
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—João Paulo não come isso não, disse minha avó.

Na frente da geladeira estava eu, com fome, parado pensando na morte da bezerra. Vejo a porta, as prateleiras, e puxo uma gaveta. Abro a gaveta e vejo duas fatias de presunto rosas como um porco. Era presunto de peru. Pego-as e ouço minha avó dizer.

— não vai comer isso, já está ai tem muito tempo, explicou.

Coitado do peru, aliás, do presunto. Ali coitado, sozinho tão e solitário, não havia nenhum bacon, sobre coxa ou peito para lhe consolar. Peguei-o e abri o plástico. O plástico estava suado feito um porco, frio e gelado. Eram duas fatias rosinhas recheadas de proteína peruana, com nervinhos brancos e ….fungo? Sim; e mesmo assim, as desejei como um leão deseja um veado de tanta fome. O cheiro me levava pra dentro de um abate.

Foi ai que algum espírito de porco me roubou a mente. Não imaginei do veado ensangüentado na boca do leão, mas em um abatedouro. E de tabela, o peru sendo esfaqueado gritando glugluglu-gluglulgu. Fui tomado pela sensibilidade. E se eu fosse um peru? Já pensou se os perus comecem os humanos ao invés do que acontece? Ou pior, Se alguém fizesse algo de mal com o meu peru. Senti vontade de nunca mais na vida financiar sofrimento animal.

De repente, volto àquela cena da minha avó na cozinha me olhando por trás dos óculos, com o peru na mão, digo; o presunto na mão. Senti o cheiro novamente daquela carne fria e lembrei-me daquele veado, agora sendo despedaçado pelo leão. No mesmo instante sem hesitar, mordi o presunto. Comi a fatia numa bocada só. Nhoc Nhoc Nhoc Nhoc. A satisfação era tamanha que um sorriso abriu minha boca mostrando os dentes mastigando a fatia de carne. Depois foi a outra, numa só bocada também. Menos duas fatias peruanas póliproteicas solitárias e ‘’fungnolentas’’ no mundo.

—João Paulo, isso vai te dar dor de barriga menino! Gritou minha avó.

Olhei com o desprezo de um onívoro que olha para um veagan dizendo: “Aiiii, depois que eu vi aquele vídeo no youtube daqueles homens fazendo os animais sofrerem, parei de comer carne”. Ainda pensei em dizer algo para retrucar, mas sem querer arrotei.

—Bleeerrr…

—Que porqueira é essa João Paulo? Repreendeu-me a veia.

Dei as costas sem falar nada e fui pra sala. Minha tia acabava de chegar de visita.

—Oi tia, disse e acenei.

— Oi meu filho tudo bom? Acabou de acordar foi?

Já ia voltar para o meu quarto, quando ela não podendo deixar de notar, comenta sobre minha cuequinha de caveira.

—E essa cuequinha de caveiras ai? É pra sepultar o difunto é?

…Só não me lembro de ter pensado primeiro no peru ou no presunto.

O terror não paga passagem outubro 31, 2008

Posted by joaopaulonevescabral in Conto.
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A semana parecia começar como outra qualquer. Segunda-feira, despertador, café da manhã, sigo para a faculdade. Desta vez, porém, eu não consegui chegar ao meu destino. No caminho aconteceria algo que mudaria a minha vida profundamente.

6.30 eu pego o ônibus com sono, aquela mesma gente de sempre, a sagrada família que a rotina me concedeu. Sento-me atrás de Dona Matilde que não perdoa e logo cedo começa a fofocar da vida dos outros:

– Pois é querida, hoje em dia o mundo está tão perigoso! Ontem mesmo Geraldina, vizinha lá do prédio da minha mãe foi seqüestrada em plena luz do meio dia, vê se pode?

Dona Matilde é camelô, não há nada que aconteça na feira que não passe aos olhos ou chegue aos ouvidos dessa. Cada ‘’rapa’’ é uma nova aventura. O ônibus inteiro parecia acordar às fofocas da camelô, eu que já estava de saco cheio, saí e fui sentar no fundo.

Foi quando o ônibus parou na parada e subiram três pessoas, Carlinhos e mais dois rapazes que eu nunca tinha visto na vida: usavam capuz, bermuda e um caderno na mão. Um deles se sentou ao lado de uma jovem estudante muito bonita, o outro ao meu. Foi ai que o garoto da frente começou a pentelhar a bela jovem:

– Oi loirinha, sabia que tu ta muito gostosa hoje? O que é que ta faltando pra gente se beijar na boca hein?

– Sai daqui seu drogado!

Foi só ela gritar para o pessoal comprar a briga, quando inesperadamente o garoto saca uma pistola, anuncia o assalto e pede pra que ninguém se mova, grite ou tente alguma coisa, se não a coisa ia ficar feia. Nada adiantou, em meio a gritaria e tumulto ele dispara contra o teto do ônibus e nervoso novamente avisa:

– Vocês devem ta achando que isso aqui é brincadeira! Se não ficarem quietos e calados, vão virar tudo peneira, ta ligado!

No exato momento, o garoto ao meu lado saca uma arma e apontando para os passageiros pede para que dêem tudo que têm. Estava perplexo, paralisado não conseguia me mover de tanto medo, ao apontar a arma para mim respondi gaguejando que não tinha nada e que era apenas um estudante. De repente, o assaltante da frente percebe em meio à confusão, um senhor usando um celular, que provavelmente estaria chamando a policia. Então, sem hesitar, ele dispara duas vezes. A primeira estilhaça o vidro do ônibus, a outra o atinge em cheio no peito. Diante daquela cena, um vigia que por sorte estava no ônibus, notando que o garoto estava distraído, saca a arma e dispara um tiro certeiro na nuca, o assaltante cai agonizando e sangrando.

O ônibus virara um inferno. O sangue quente que escorria sobre o chão, refletia junto aos cacos dos estilhaços o pânico que dominava a mente de cada um ali. O choro, as preces e os gritos acentuavam-se. Já não se destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que ecoava todo o ônibus. A tensão corroia os nervos e a apreensão deixava todos ao mesmo tempo paralisados.

O outro assaltante que estava perto de mim, tomado pelo desespero de ver seu parceiro morto, me toma como refém. Senti-me entrar em coma, como se o corpo se entregasse completamente à agonia de esperar freneticamente o resultado de cada instante seguinte. Não conseguia pensar em nada, nem mesmo na morte.

Não demora muito e a polícia chega, seis viaturas cercam o ônibus junto às câmeras, jornalistas e curiosos. O celular do senhor que fora baleado toca. O garoto pega e tremulo começa a negociar com a polícia.

– Alô! É o seguinte, estou com o ônibus lotado de reféns, e vou estourar os miolos de todo mundo se vocês não saírem daqui!

– Calma, calma rapaz, você não vai ganhar nada com isso, só tem pessoas simples como você ai, tem alguém ferido no local?

– Não! –Tem sim! Grita uma senhora aflita – Cala a boca sua desgraçada!

– Rapaz! Por favor, queremos o bem de todos. O ônibus está cercado, não tem para onde fugir. Libere os reféns e saia com as mãos para cima!

– E o que é que eu ganho com isso seu porco fardado hein? Pra manter a cabeça de todo mundo no lugar? Já estou lascado, e não me importo de levar ao menos dois comigo!

– Não! Pelo amor de Deus rapaz, não faça isso! Qual é seu nome?

– João.

– Então João, eu te prometo um advogado para lhe defender no tribunal, mas, por favor, não machuque mais ninguém.

O assaltante pensa melhor e libera os reféns, porém, continua com a arma apontada para minha cabeça.

– Tem mais alguém com você João?

– Tem um mané que vai pagar se vocês não fizerem tudo direitinho.

– Não vai acontecer nada, fique tranqüilo. Seu advogado já esta aqui, agora eu preciso combinar a forma que vocês vão sair daí. O refém vai sair primeiro com a mão na cabeça, depois você sairá também com a mão na cabeça, mas antes você coloca a arma no chão, os policiais vão te revistar e a partir daí, você terá tudo que eu te prometi.

Graças a Deus e a competência dos policiais, o bandido se entrega. O terror chega ao fim, o bandido preso, fui levado ao hospital, porém estava tudo certo. Nunca esquecerei da agonia que passei naquele dia.

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